segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Encontros cotidianos

  Mais um dia paulistano costumeiro em que saí com pressa, corri atrás do ônibus, desci e fui adentrando pelas ruas me guiando por um trajeto que escrevi em um papel de rascunho com as coordenadas para chegar em meu compromisso. Corredores de ônibus são fantásticos, gostaria de dedicar este post especialmente aos corredores de ônibus pelos quais passei hoje que me permitiram chegar com precisão de horário em meu destino, sem vocês eu não teria conseguido, obrigada!
  Meus trajetos sempre são feitos através de ônibus, metrô, trem e dos meus pés. Gostaria de adicionar mais algum meio de transporte alternativo em  minhas possibilidades de locomoção, mas sou uma péssima ciclista e acredito que um tanto desatenta demais para me aventurar em vias públicas que não possuem adequação e segurança para aqueles que utilizam meios alternativos de transporte. Então, por enquanto, me mantenho naqueles citados no inicio deste paragrafo.
  E como eu adoro andar a pé pela cidade! Explorar as ruas e me apropriar dos cantos, me sentir livre para ir e vir sem ter que respeitar as setas que indicam os sentidos das ruas e poder entrar onde veículos não podem. A velocidade sou eu quem faço, se paro ou continuo, é minha decisão! E posso parar, adentrar, conhecer lugares e pessoas que estando dentro de um veículo eu só passaria reto pensando: "Nossa, preciso parar aqui algum dia". Algum dia.

  Foi hoje que, voltando à pé do compromisso que tinha, passei por ela. Ela estava sentada em uma mureta e era uma mulher linda! Puxou assunto comigo e eu respondi. Fiquei ali alguns minutos com ela e em certo momento ela comentou que eu era muito simpática e que é muito difícil as pessoas pararem para conversar daquela maneira, com tanta atenção. Agradeci o elogio e perguntei seu nome, ela me respondeu: Agatha. Comentei com ela que acho este nome belíssimo, ela agradeceu, perguntou o meu nome e comentou que acha que também tenho um nome bonito e forte.
  Agatha me contou que estava lá sentada esperando dar a sua hora de ir almoçar e me contou que almoça sempre em um restaurante baratinho que fica lá perto de onde estávamos. Disse-me ainda que o dono do restaurante a conhece e acaba cobrando mais barato pelo PF, apenas R$6,00. Demos algumas risadas juntas e em certo momento avisei que precisava ir, ambas comentamos que adoramos a conversa e nos desejamos um ótimo dia. Então retomei meu caminho, deixando que meus pés me levassem até o meu ponto de ônibus.

  Mas eu precisava mesmo ir? Fiquei pensando que poderia ter ficado mais tempo por lá, tê-la convidado para um café, ouvido suas histórias e contado as minhas. Apreciar um pouco mais deste momento de encontro com uma pessoa tão interessante, já que eu tinha um tempo livre. Arrependi-me de ter ido embora sem conversar mais com Agatha e espero sinceramente poder reencontrá-la um dia. 
  Esses encontros cotidianos são preciosos, algumas das pessoas mais interessantes que já conheci em minha vida passaram por mim assim, como uma conversa de alguns minutos em uma brecha do dia corrido.

  Aliás, Agatha é uma travesti moradora de rua no centro de São Paulo e me abordou para pedir esmola para comprar o seu almoço. Não falei antes porque não achei importante e acredito que este detalhe não vá afetar sua impressão sobre ela...

domingo, 7 de abril de 2013

Dia a dia em notícias

  Cotidianamente me encontro com diversas situações, pessoas e contextos que formam as cenas do meu dia a dia, as notícias do meu cotidiano. E pergunto: estamos abertos para perceber e compreender tais cenas e notícias? Nos importamos com os flagrantes que presenciamos todos os dias? Estamos atentos para ver e escutar o que acontece diante de nós sem que estejam enquadrados em um televisor? Estamos dispostos a nos compreender como atores, autores, interventores de nossa realidade cotidiana? Dispostos a sermos denunciantes, relatores e redatores de nossas vivências sociais?

  Sou cidadã usuária de transporte público na cidade de São Paulo e acredito que utilizar o transporte público nos dá a oportunidade de conviver com as pessoas e a cidade, nos apropriando das relações - ou das não-relações - que se constroem em meio a toda esta urbanidade. Era mais um dia costumeiro em que eu estava em um dos carros que realizam a linha 917H Terminal Pirituba/Vila Mariana, seguindo meu trajeto até a faculdade. Estava em pé visualizo então nas costas de um dos assentos a frase "Já Abriu os Olhos Hoje?" e aquela frase me inflou, me preencheu de pensamentos e de alegrias, me fez olhar para cada paisagem de maneira diferente, com os olhos realmente abertos.

  Pensei como gostaria de registrar aquela frase artisticamente pichada no verso do assento, e eis que a mulher que estava sentada diante desta fantástica cena de inspiração se levanta para dar o sinal e seguir seu rumo já fora do ônibus. Sentei-me. Sentei-me sentindo que aquele lugar havia sido dado a mim como um segundo presente, já que eu já havia sido presenteada pela inspiradora frase.
Frase encontrada em um dos bancos do fundo de um dos ônibus que realizam a linha 917H - Terminal Pirituba/Vila Mariana em São Paulo - SP.
  Tirei uma foto com o meu celular, porque hoje em dia com estes aparelhos móveis quase qualquer um pode se tornar "repórter cinematográfico", quase. Registrei então em imagem este momento de satisfação e inspiração e a vontade que tinha era de mostrar para todos daquele ônibus o assento que havia modificado meu dia e humor, a vontade que tinha era de sair pelas ruas e espalhar bons dias para as pessoas acordarem para o seu redor e abrissem os olhos.

  Então clamo aqui, peço aqui, pergunto aqui: Você já abriu seus olhos hoje?